Autismo em Embu das Artes: mães denunciam descaso e falta de estrutura no atendimento do CER
Banheiros sujos, escassez de profissionais, sessões de atendimento curtas e falta de políticas públicas voltadas a adolescentes e adultos com autismo. Esses são apenas alguns dos problemas enfrentados por famílias que dependem do Centro Especializado em Reabilitação (CER) de Embu das Artes, na Grande São Paulo.
Mônica de Oliveira, 37, estudante de pedagogia e mãe do pequeno Mathias, de 5 anos, tornou-se porta-voz dessas denúncias. Em abril de 2025, ela publicou um vídeo nas redes sociais relatando as dificuldades enfrentadas por famílias atípicas. Mônica lidera o coletivo Maeb (Mães Atípicas de Embu) e afirma que retirou seu filho do CER um ano antes, por não notar evolução no tratamento. “As sessões duravam apenas 15 a 20 minutos por semana. É impossível um atendimento eficaz nesse tempo”, desabafa.
A psicóloga Danúsia Tolêdo, 31, especializada em Análise do Comportamento Aplicada (ABA), reforça a crítica. “Crianças com autismo precisam de no mínimo 50 minutos por sessão para se adaptarem e desenvolverem habilidades. Do contrário, o progresso é comprometido.”
Além da baixa duração das sessões, mães relatam reagendamentos de última hora, atendimentos em grupo e carência de uma equipe multidisciplinar completa. Tatiane Pereira, 37, mãe de Eric, também de 5 anos, lembra que uma das poucas nutricionistas do local pediu exoneração, alegando esgotamento físico e emocional. “Fico triste, era uma excelente profissional. Mas entendo — a carga é desumana.”
Demanda alta, estrutura falha
Segundo o Censo 2022 do IBGE, Embu das Artes tem 2.680 pessoas com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). No entanto, o CER não consegue suprir a demanda. Faltam psiquiatras, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais. “Tem uma única terapeuta para dar conta de mais de 100 crianças. Ela trabalha o dia inteiro. É humanamente impossível”, denuncia Mônica.
A situação precária se estende à limpeza e estrutura do local. Mães relatam a ausência de insumos básicos como papel higiênico e sabonete, além de banheiros em más condições. Camila Félix, 33, também do Maeb, afirmou que, por meses, o CER ficou sem equipe de limpeza — e houve até relatos de larvas em galões de água trocados no início do ano.
Camila também questiona a suposta ausência de fila para atendimento, conforme divulgado pela prefeitura. “Conheço mães esperando vaga há mais de dois anos. Dizem que não tem fila, mas não explicam onde foram parar os encaminhamentos médicos.”
Resposta da Prefeitura
Procurada, a Prefeitura de Embu das Artes afirmou que o CER realiza mais de 5.000 atendimentos mensais e que o serviço atende às normas técnicas do Ministério da Saúde. A gestão reconheceu a exoneração da nutricionista, informando que os atendimentos foram redirecionados à rede municipal.
A prefeitura também anunciou a contratação recente de um neurologista pediátrico e que está chamando novos profissionais por meio de concurso público. Negou, porém, a existência de fila de espera, alegando que os atendimentos são estruturados individualmente, com base no Projeto Terapêutico Singular.
Luta por visibilidade e dignidade
As denúncias vieram à tona durante a 1ª Caminhada de Conscientização do Autismo, realizada em 27 de abril, onde mães reforçaram a urgência por mais atenção do poder público. A ausência de políticas voltadas a adolescentes e adultos com TEA também foi destacada como uma das grandes lacunas do sistema de saúde local.
Para Mônica, o coletivo Maeb segue como voz ativa em busca de direitos, dignidade e qualidade no atendimento. “Queremos respeito, estrutura e acolhimento real. Nossos filhos não podem esperar”, conclui.
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